13 Maio 2017: Festival, Futebol, Fátima… e Fianchetto!

O passado 13 de Maio de 2017 foi um dia histórico para vários F: houve Festival, Futebol, Fátima... e Fianchetto! Salvador Sobral inscreveu Portugal na lista de vencedores da Eurovisão, o Benfica conquistou o seu primeiro tetra, Fátima recebeu o Papa... e uma Torre de Loulé, o Tiago Pinho, venceu a final do Distrital Individual numa partida em que ambos os jogadores jogaram em fianchetto*.

(*«flanco pequeno», em italiano; no xadrez, é um padrão de desenvolvimento que surge quando um Bispo ocupa a segunda casa da grande diagonal).

Vencedor quer da fase preliminar (em sistema suíço, com jogadores estrangeiros), quer da fase final (a eliminar, disputada pelos oito portugueses melhor classificados na fase preliminar) do Campeonato Distrital Individual Absoluto 2016/2017, Tiago Pinho fala sobre o seu percurso na modalidade e o seu desempenho na prova rainha da Associação de Xadrez de Faro.

Olá, Tiago! Conseguiste obter o título de Campeão Distrital Absoluto na tua segunda participação. Há algum segredo para este sucesso?

Se houver, o segredo é a persistência, ou melhor, a resiliência, como gosta de sublinhar o nosso colega andaluz Oliver Jurado Pérez. O Algarve tem, como historicamente sempre teve, um conjunto diversificado de xadrezistas competentes. Isso faz com que todas as partidas sejam disputadas e as provas competitivas, pois não há resultados certos. O ano passado perdi logo na segunda jornada, deixei de ter contacto com a liderança e tive que fazer o torneio de baixo para cima. Depois, voltei a falhar na última jornada e terminei em 5.º lugar, enquanto o Dinis Libório, que aí me venceu, se sagrou campeão. Este ano comecei melhor. Na segunda jornada, com o Konstantin Von Gotzen, a partida esteve igualada durante muito tempo, mas recusei as propostas de empate e acabei por aproveitar um erro do adversário para ganhar o ponto inteiro. Consegui partir na liderança e o trabalho custoso da perseguição ficou a cargo dos outros jogadores. Fui capaz de manter o ritmo e terminei a prova sem derrotas. Por isso, se houver um segredo, é a capacidade de continuar a insistir, a avançar, de ultrapassar obstáculos e, ao mesmo tempo, conseguir recuperar desse esforço sem perder força ou determinação. Claro que também é preciso ter sorte: ninguém consegue ser sempre persistente e resiliente… felizmente o campeonato aconteceu num momento em que estava em boa forma.

 

Como preparaste o campeonato? Tiveste a ajuda de alguém?

Não fiz nenhuma preparação específica, mas há já algum tempo que tenho vindo a fazer uma abordagem mais sistemática ao jogo. Em 2014, venci, para surpresa minha, o Escalão Sub-2000 do Open do Canadá, em Montreal. Apesar de ter sido sovado na primeira jornada (levei mesmo uma tareia das antigas! [risos] acho que nem cheguei a fazer roque...), o ambiente descontraído – estava de férias, em casa do meu irmão – fez com que jogasse sempre sem pressão e quando cheguei ao fim da nona partida tinha 8 pontos. Terminei em primeiro, ex-aequo com um xadrezista canadiano, e decidi investir o prémio em aulas de xadrez com pessoas que não só sabem muito do jogo como têm uma abordagem especialmente didáctica: o Mestre Internacional Jorge Viterbo Ferreira, o jogador n.º 1 do ranking português, que tem uma visão transversal do jogo, com pontes para elementos históricos, sistemáticos e até filosóficos que muito me agradam e que transmite com especial entusiasmo; o MI búlgaro Valeri Lilov, treinador profissional, que é um excelente pedagogo; e o Mestre FIDE siciliano Alessandro Santagati, com quem havia jogado uma vez no Open de Erice, que me preparou algumas aulas temáticas, muito personalizadas, com base nas falhas que detectou nas minhas partidas. Todos eles me ajudaram a evoluir, mostrando-me novos caminhos e renovando o prazer que sinto ao jogar xadrez. Agora a preparação… é impossível ter a certeza do que o adversário vai fazer, do que quer jogar, por isso para mim não é uma prioridade decorar sequências de jogadas que se adeqúem ao estilo de jogo do próximo adversário. Prefiro um trabalho coerente que, aumentando o nosso arsenal de conhecimento, cria confiança extra e permite-nos agir e reagir ao comportamento do adversário, seja ele quem for.

 

Mesmo sem fazer um trabalho específico em relação a cada um dos adversários, seguiste alguma rotina?

Tirando os treinos – que mesmo assim nunca tiveram periodicidade certa, tanto foram semanais, como às vezes era só um ou dois por mês, e meses houve em que não tive contacto com nenhum treinador -, não diria que segui uma rotina, embora seja possível identificar certos comportamentos que me davam algum conforto. Por exemplo, os jogos foram normalmente aos sábados à tarde, e gostava de começar o dia com um passeio por Loulé que terminava no mercado onde comprávamos o peixe e a cerveja para o almoço, e as amêndoas para roer durante os jogos… também gostava de jogar equipado com a camisola do Loulé ++, apesar de a prova não ser por equipas, e ainda que não fosse a mesma, penso que usei quase sempre uma esferográfica da mesma marca e modelo.

 

Há alguma partida do Campeonato que queiras destacar?

Duas, se puder ser: na fase preliminar, a partida contra o Vítor Leal, penso que foi a melhor que joguei nos últimos tempos. Na verdade, durante o jogo, estava confortável com os planos que ia descobrindo, mas só depois de rever a partida no computador é que me apercebi que a maior parte das minhas decisões tinham o aval do monstro informático. E a partida da final, não só porque foi bem conseguida mas também porque, sendo portuense e  portista, nascido na década de 70, foi bem inculcado na formação da minha personalidade que as finais são para ganhar! [risos]

[seguem as duas partidas, anotadas - para ver o jogo da final, efectuar a selecção no menu popup que se encontra acima do tabuleiro. a entrevista continua depois]

[Event "Camp. Distrital Absoluto de Faro"] [Site "Portimão"] [Date "2017.04.25"] [Round "4"] [White "Leal, Vítor"] [Black "Pinho, Tiago"] [Result "0-1"] [ECO "B22"] [WhiteElo "1727"] [BlackElo "1898"] [Annotator "B. Pinho,Tiago"] [PlyCount "90"] [EventDate "2017.04.25"] [SourceDate "2017.04.25"] [SourceVersionDate "2017.04.25"]

1. e4 c5 2. c3 d5 {A ideia é aproveitar o facto de a casa c3 estar ocupada
por um peão, o que impede que a Dama em d5 seja importunada pelo Cb1 que já
não pode ir a c3.} 3. exd5 Qxd5 4. Qf3 Nf6 {Se trocasse as Damas, ajudaria as
brancas a desenvolver uma peça (o Cavalo iria terminar em f3). Com este lance
são as pretas que ficam já com um Cavalo em jogo.} 5. Qxd5 Nxd5 6. Bc4 Nb6 {
Uma defesa com contra-ataque: o Cavalo foge do ataque do Bispo e retribui na
mesma moeda.} 7. Be2 Nc6 {As pretas mantêm a iniciativa: estão a colocar o
seu exército em jogo mais depressa que as brancas} 8. Nf3 e5 {lutando pelo
centro e pela importante casa de d4. Se as brancas conseguissem jogar d2-d4, o
desenvolvimento do Bc1, do Cb1 e, consequentemente, da Ta1, seria mais simples}
9. d3 Bf5 10. Nh4 {88} Be6 {87 - as pretas mantêm o par de Bispos e deixam o
Ch4 numa má posição: «Cavalo na tabela é como o Baltazar à janela!» -
quem já foi a Alte sabe o que isto significa :)} 11. O-O Be7 {desenvolvendo a
última peça menor com ganho de tempo} 12. Nf3 O-O {A fase inicial do jogo
foi um sucesso para as pretas: têm as suas 4 peças menores desenvolvidas,
contra apenas 2 das brancas.} 13. Rd1 Rfd8 {melhorando a posição da Torre
que aumenta o seu potencial na coluna D, directamente apontada ao peão de d3}
14. Nbd2 h6 {um lance preventivo que visa controlar a casa g5, de modo a
retirar actividade às peças brancas que poderiam tentar trocar material com
Bg5 ou Cg5 e assim aliviar o espartilho (têm todas as suas peças nas
primeiras três filas), de modo a combater a vantagem de espaço das pretas}
15. Nb3 {79} c4 {65 - as pretas aproveitam a descoordenação das peças
brancas para abrir linhas no centro do tabuleiro, onde as suas peças estão
melhor colocadas} 16. dxc4 Rxd1+ {obrigando o Bispo branco a regressar à
linha 1 onde vai complicar o desenvolvimento da Torre} 17. Bxd1 Nxc4 18. Be2
Rd8 19. Nbd2 Nxd2 {a troca justifica-se porque obriga o Cavalo branco a recuar.
Não é possível capturar de Bispo devido a e5-e4 que afastaria o Cf3 das
suas tarefas defensivas em relação ao Bd2} 20. Nxd2 {69} f5 {63 - a jogar
com dois peões contra um nas colunas E e F, as pretas começam a reclamar
espaço na ala de Rei} 21. Nf1 Kf7 {Sem Damas em jogo e com todas as peças
brancas nas duas primeiras filas, o Rei preto pode entrar em acção sem
recear qualquer emboscada branca} 22. Bd2 g5 23. b3 e4 24. Rd1 f4 {as pretas
continuam a executar o seu plano de expansão na ala de Rei} 25. Bc1 {[%emt 0:
00:59]} Rxd1 {[%emt 0:00:41]} 26. Bxd1 {ao fim de 25 jogadas, todas as peças
brancas continuam na fila 1. Isto nunca é bom sinal...} Ne5 {melhorando a
posição das peças. O cavalo quer ir para d3, com os olhos postos em f2 e no
Bc1. Durante o jogo senti que estava melhor, mas não percebi que já estava
ganho porque não vi que o ataque directo das brancas a e4 seria punido com um
golpe táctico (ver variante)} 27. h3 {ao descurar a defesa de f2, as brancas
ficam em maus lençois...} (27. Bc2 Bf5 28. Nd2 (28. f3 Bc5+ 29. Kh1 e3) 28...
e3) 27... Nd3 {atacando o Bc1 que só tem uma casa de fuga disponível...} 28.
Bh5+ Kf6 29. Bd2 Bc5 30. Nh2 {[%emt 0:00:53]} e3 {[%emt 0:00:35] aproveitando
a falta de espaço da posição branca} 31. fxe3 fxe3 32. Bxe3 Bxe3+ {Com um
bispo a mais e o domínio total do centro, a vitória já não pode escapar
às pretas} 33. Kf1 Bf4 34. Nf3 Nc1 35. Nd4 {[%emt 0:00:51]} Nxa2 {[%emt 0:00:
31]} 36. Nxe6 Kxe6 37. c4 Ke5 38. Ke1 Kd4 39. Bd1 b6 40. Kf2 {[%emt 0:00:50]}
Kc3 {[%emt 0:00:31]} 41. g3 Bd6 42. h4 gxh4 43. gxh4 Nc1 44. Ke3 Nxb3 45. Be2 {
[%emt 0:00:52]} a5 {[%emt 0:00:32] com o peão a iniciar a marcha em
direcção à promoção, as brancas abandonam} 0-1

[Event "Camp. Distrital Absoluto de Faro"] [Site "Faro"] [Date "2017.05.13"] [Round "8"] [White "Pinho, Tiago"] [Black "Pena, Hélio Adelino Silva"] [Result "1-0"] [ECO "A16"] [WhiteElo "1873"] [BlackElo "1897"] [Annotator "B. Pinho,Tiago"] [PlyCount "61"] [EventDate "2017.05.13"] [SourceDate "2017.05.13"] [SourceVersionDate "2017.05.13"]

{Na Abertura, a fase inicial do jogo (mais ou menos os primeiros 15 lances),
temos três objectivos: controlar o centro, desenvolver as peças e proteger o
Rei.} 1. c4 {Com este lance, as brancas iniciam a partida lutando pela casa d5
(objectivo: controlar o centro).} Nf6 2. Nc3 {os dois jogadores lutam pelas
mesmas casas centrais: d5 e e4} b6 3. e4 e5 4. g3 Bb7 5. Bg2 {as primeiras
jogadas das brancas têm um padrão: lutar pelas casas d5 e e4. as primeiras
peças desenvolvidas, o Cc3 e o Bg2, apontam a essas casas.} Nc6 {já as
pretas tentaram contrabalançar o domínio branco em d5 e e4 (casas brancas do
centro) lutando por e5 e d4 (casas pretas do centro)} 6. Nge2 {[#] Este lance
tem duas ideias: uma defensiva - lutar pela casa d4, que estava controlada por
duas peças pretas, o Cc6 e e5; e outra ofensiva - permitir f2-f4, com o qual
as brancas poderão tentar criar um ataque ao rei preto se ele rocar pequeno.}
Bc5 7. h3 {este lance não é espectacular: não controla o centro, não
desenvolve uma peça e mal protege o rei. no entanto, queria evitar ideias de
Cg5 e Df6 com pressão sobre f2. Era possível e mais natural, uma vez que as
pretas não têm nenhuma ameaça imediata, continuar com 7. d3 seguido de 8.
0-0.} h6 8. d3 {[#] esta é a estrutura típica de peões que caracteriza o
Sistema Botvinnik da Abertura Inglesa. Aquele V - c4, d3, e4 - assegura
espaço nas duas alas do tabuleiro, de modo que as brancas tanto podem
continuar com a3-b4 ou f4-g4. O desenvolvimento costuma terminar com 0-0, Be3,
Dd2 e Cg3.} Qe7 {[#]} 9. Nd5 {Com a última jogada as pretas deixam em aberto
a possibilidade de fazer roque grande. Sempre que uma peça joga, devemos ver
o que passa a fazer, mas também o que deixa de fazer. Neste caso, Dd8-e7,
deixou de proteger c7 (alvo - peça desprotegida). A Dama também é um alvo -
peça valiosa. Por fim, a peça preta melhor colocada é o Bc5 (controla d4 e
aponta a f2, bem perto do Rei branco). Com Cd5, as brancas tocam nos dois
alvos - c7 e De7 - e reforçam e3: se as pretas recuarem com Dd8, protegendo
os alvos, as brancas podem jogar Be3 sem recear dobrar os peões: 9. ... Dd8
10. Be3 Bxe3 11. Cxe3, por exemplo.} Nxd5 10. cxd5 {84 - decidi capturar com o
peão de c para abrir a coluna em direcção ao alvo c7 que pode ser
pressionado, por exemplo, com uma Torre em c1 ou a Dama em c2.} Nd4 {87} 11.
Be3 {desenvolvendo a última peça menor} Rd8 {Com esta jogada, as pretas
dizem querer abrir o centro - a sua ideia é jogar c6, e depois de exc6 dxc6,
a Torre ficaria a atacar o peão atrasado de d3. Mas já sabemos que além de
ver o que as peças passam a fazer, também devemos ver o que deixam de fazer.
Neste caso, a jogada da Torre deixou de proteger o peão de a7 (alvo -
material desprotegido)} 12. Nxd4 {[#] Não devemos trocar peças só por
trocar. Só o devemos fazer quando tal nos for favorável. A ideia desta troca
é criar uma fraqueza permanente na estrutura de peões preta: um peão
dobrado em d4, de preferência desprotegido ou pouco protegido, para servir de
alvo} Bxd4 {parece uma jogada normal... mas é o erro que dá vantagem às
brancas. era melhor capturar de peão, mantendo o peão de d4 protegido pelo
Bc5. Além do mais, as pretas contra-atacavam: 12. ... exd4 13. Bd2? Bxd5! (13.
Bf4 atacando o alvo c7 mantinha o jogo igualado)} 13. Bxd4 exd4 {[#] agora
temos dois alvos: a7 e d4. É só encontrar a casa a partir da qual podemos
atacar os dois... (o ataque duplo é a táctica mais elementar do xadrez. o
xadrez joga-se à vez, por turnos: se se criar dois problemas ao adversário,
ele vai ter que os resolver numa só vez de jogar. muitas vezes tal não é
possível...)} 14. Qa4 c5 15. Qxa7 {66 - as pretas quiseram proteger o peão
de d4, as brancas capturam o de a7. Agora temos um desequilíbrio material: os
exércitos já não têm a mesma força - as brancas estão a ganhar por um
peão. É altura para adoptar uma nova estratégia:as brancas estão a ganhar,
querem trocar peças e não peões. A ideia é eliminar os defesas pretos um
por um para no fim promover o peão que temos a mais, conseguir uma Dama e
depois dar xeque-mate ao rei preto. Vamos lá ver se corre bem :)} Bxd5 {78}
16. O-O {Jogada dois em um: por um lado, protege o rei (um dos três
objectivos da abertura); por outro, ataca o Bd5 - e4 deixa de estar pregado e
volta a controlar d5} Bc6 17. Qxb6 {as brancas recuperam o peão de vantagem e
criam outro alvo. c5 é um alvo porque está pouco protegido: o número de
defesas (1, De7) não é superior ao número de atacantes (1, Db6)} O-O {[#]}
18. Rfc1 {As brancas continuam a desenvolver as suas peças em direcção aos
alvos da posição preta. Por que não jogar antes Tac1? Pela razão que vimos
anteriormente: temos que ver o que as peças deixam de fazer. Com Tfc1, a
Torre abandonou a protecção de f2 que, ainda assim, continua protegido pelo
Rei; já com Tac1, o peão de a2 ficaria desprotegido e tornar-se-ia um alvo
para as pretas. Por exemplo: 18. Tac1 Tb8 19. Dxc5 Dxc5 20. Txc5 Txb2 e as
brancas têm que gastar uma jogada a defender o peão: 21. Ta1} Rb8 19. Qxc5
Qxc5 20. Rxc5 {62} Rxb2 {[#] 76 - comparando com a continuação 18. Tac1, as
brancas estão a jogar com um tempo a mais (aqui a Torre preta ainda está em
f8, não em a8 a bloquear o avanço a2-a4), o que vai ser decisivo para o
sucesso da sua manobra atacante} 21. a4 {os peões passados são para avançar.
os peões não valem todos o mesmo: normalmente, um peão central vale mais
que um peão das alas; e um peão mais próximo da promoção vale mais que um
que está na casa inicial. Um peão na sétima que vai ser promovido, apesar
de ser um peão já vale como uma Dama...} Ra8 22. a5 {[#] o peão aterra numa
casa preta. as pretas têm duas torres e um bispo de casas brancas. estando o
peão numa casa preta, significa que o bispo preto, que só anda nas casas
brancas, nunca o poderá incomodar.} Rb3 {[#] as pretas vão atrás dos alvos
da posição branca: d3 é um alvo (material desprotegido)} 23. e5 {esta foi a
jogada que me custou mais descobrir e que penso que dá uma vantagem
significativa às brancas. aproveitando a Ta8, as brancas forçam a troca do
Bispo, um importante defensor (a6 e a8) da caminhada triunfal que as brancas
querem para o seu peão de a5} Bxg2 24. Kxg2 {plano bem sucedido: menos um
defesa. Agora, as brancas querem trocar uma Torre ou forçar o avanço do
peão passado de a5} Ra7 {[#] as pretas defendem o seu alvo de d7 (material
desprotegido)...} 25. Kf3 {[%emt 0:00:15] ... mas as brancas não! pode
parecer surpreendente, mas a estratégia é boa. Com apenas duas Torres contra
outras duas, o exército preto vai ter dificuldade em dar xeque-mate ao Rei
branco. No final, quando o risco de mate é reduzido, o Rei deve
transformar-se numa peça de ataque! O que interessa é mobilizar o exército
todo, ie, ter as peças activas, a fazer coisas úteis.} Rxd3+ {[%emt 0:00:20]}
26. Ke4 Rd2 {[#] as pretas apontam a outro alvo: f2, material desprotegido} 27.
a6 {e as brancas voltam a ignorar: um peão na sexta fila, a duas casas da
promoção, é um elemento bastante perigoso...} Rxf2 {as pretas confiam que
as brancas não têm maneira de criar problemas com o peão de a6 e optam por
ficar em vantagem material pela primeira vez na partida} 28. Rb5 {[#]} Rc2 {
as pretas colapsaram aqui: 28. ... f5 29. Rxd4 Rf7 acaba com o tema do xeque
na oitava fila e torna a progressão branca mais complicada. por exemplo: 30.
Tb7? axb7 31. Tb2 e não há Ta8+ que ganharia o tempo que permitiria b8=D (30.
Rc5 com ideia de Rb6 era a forma das brancas progredirem, e apesar de a
posição branca ser ganhadora, há muitas hipóteses de errar pelo caminho...)
} 29. Rb7 Rc7 30. Rxc7 Rxc7 {as pretas têm um peão a mais. Mas já sabemos
que os peões não são todos iguais... o peão de a6 já vale 5 pontos (uma
torre, pois se as pretas quiserem evitar que as brancas joguem com uma Dama a
mais, vão ter que sacrificar a torre)} 31. a7 {[#]} 1-0

 

Como começaste a jogar xadrez?

Como muitos, aprendi a jogar com o meu pai, por volta dos seis anos. Ele, por sua vez, aprendera a partir de uma revista, publicada na altura do match Fischer – Spassky que havia colocado o xadrez, como instrumento da guerra fria, na televisão e na imprensa. O meu pai ensinou alguns irmãos, um dos quais começou a jogar em clubes. Um dia esse meu tio foi lá a casa, jogámos uma partida e ele desafiou-me a integrar o clube dele. Foi assim que ingressei no Grupo de Xadrez do Porto onde fui progredindo. Às vezes, eu e os outros miúdos (o Bernardo Camisão, o Hélder Pinho…) tínhamos treinos com o Álvaro Brandão ou outro responsável do clube, ou assistíamos às conversas mais avançadas que os mais graúdos (a Tânia Saraiva, o Gonçalo Rodrigues, o Pedro Quaresma, os irmãos Vinhal…) tinham com o Mestre Machado, o António Silva ou o Fernando Cleto. Penso que a minha melhor formação foi à mesa do Senhor Carvalho que sempre recebia os mais novos e, quando nos via prontos para outras andanças, nos passava para as mãos do Senhor Artur. O Senhor Carvalho observava os jogos, no dia seguinte dizia-nos onde poderíamos melhorar, e ficava calmamente a ver o Senhor Artur, entre conversas sobre o Boavista, a sofrer cada vez mais com os pequenos… Joguei no GX Porto dos sub-12 aos sub-20, parei uns anos quando já estava na faculdade. Voltei a jogar quase por acaso: desafiado pelo Hélder Pinho, dinamizamos, com o Gonçalo Rodrigues, a secção de xadrez do Clube Desportivo Portugal, em Campanhã, numa altura em que a Associação de Xadrez do Porto, presidida por Manuel Pintor, estava especialmente activa. Um ano depois, passámos para o Estrela e Vigorosa Sport que tinha como responsável da secção o Pedro Baixinho Rodrigues, uma fonte inesgotável de energia e vontade: o clube chegou a ter mais de 50 xadrezistas federados e organizou, no Dolce Vita, uma demonstração de xadrez que teve mais de 5.000 espectadores (o facto de o centro comercial ser em frente ao Estádio do Dragão e o Porto jogar em casa com o Chelsea, ajudou [risos]). Algum tempo depois, quando a saúde do Pedro piorou, a secção de xadrez do EVS mudou-se para ao GXP, a tempo de alguns dos nossos alunos se sagrarem campeões nacionais de jovens em ritmo semi-rápido: a Inês Messeder Ferreira e o Rui Wang. Foi curioso, sentir que antigos “jovens” do Grupo – o clube de xadrez mais antigo da Península Ibérica, hoje com mais de 75 anos de actividade ininterrupta - estavam a passar o testemunho a outra geração. Ainda agora sou sócio do Grupo de Xadrez do Porto que, nas felizes palavras de José Prezado, “é o primeiro de alguns e o segundo de todos os outros”. O actual presidente da Direcção é o Joaquim Brandão de Pinho, o irmão a quem o meu pai ensinou a jogar e que me trouxe para esta vida dos quadrados.

 

Como é que vieste parar ao Algarve?

Em 2009, ingressei no Centro de Estudos Judiciários e pensei que a actividade xadrezística iria ter outra pausa. Não foi assim porque fiquei na mesma turma do Jorge Costa, excelente xadrezista da Pontinha que me reconheceu dos Nacionais de Jovens em que ambos participámos. Daí até termos um conjunto no bar foi o tempo de encomendar o tabuleiro ao Carlos Carneiro e as peças ao Carlos Oliveira Dias. Apareceram outros interessados, a Cláudia Monteiro, o Pedro Figueiredo… Na fase de estágio, eu, o Jorge e a Cláudia fomos todos colocados em Braga e aí criamos uma espécie de clube de xadrez cujo nome é elucidativo: «APAXES en passant» em que aquela designação meio índia são as iniciais de Almoçaradas, Passeatas, Aventura, Xadrez, Estadias e Salgadinhos… No fim do estágio, em 2012, o Jorge foi colocado em Mirandela, a Cláudia no Funchal e eu em Loulé. Os Apaxes transferiram-se para os Amigos de Urgezes, de Guimarães, que tinha uma filosofia parecida com a nossa (primeiro o estágio, depois o resultado!) e nos acolheu como “equipa satélite”. O Munir Valimamade, o Jaime Sá e o João Fonseca eram especialistas do «gambito sobremesa» que implicava faltar à primeira sessão da tarde para não prejudicar o fim do almoço! [risos] Já no Algarve, para matar a vontade de jogar, inscrevi-me no Club de Ajedrez Esuri, de Ayamonte, pois no xadrez os jogadores podem representar mais que um clube, desde que de países diferentes e desde que não joguem as mesmas competições oficiais. Era o clube mais próximo da fronteira e eu tinha algumas ligações a Ayamonte, uma vez que as nossas férias de família eram normalmente passadas em Monte Gordo numa altura em que a Associação de Xadrez de Faro, sob a alçada do Armando Lopes, organizava no Verão um circuito de torneios que corriam todo o Algarve e parte da Andaluzia, em que cheguei a participar também.

 

E como começa o xadrez em Loulé?

Deve ter começado com a chegada dos mouros! [risos] A sério, o tal circuito de xadrez organizado pelo Armando Lopes chegou a chamar-se Ibn Ammar, um político-poeta que, de acordo com algumas fontes, nasceu onde agora é São Brás de Alportel. Era um excelente xadrezista e diz-se que foi por ter ganho uma partida de xadrez ao Rei Afonso VI de Castela, que este abandonou, face à mestria estratégica demonstrada pelo conselheiro da Taifa de Sevilha, a ideia de a conquistar. Esta história está na última folha (a 64.ª, tantas quantas as casas de um tabuleiro de xadrez) do Libro de los Juegos, compilado, no século XIII, pelo Rei Afonso X, o Sábio, e que é uma das primeiras obras escritas sobre o xadrez.

 

Interessante. Mas perguntava sobre os mais recentes clubes de xadrez em Loulé…

Apesar de estar filiado pelos Amigos de Urgezes, participei em diversas provas não oficiais no Algarve a partir do momento em que aqui passei a residir, não só com os clubes federados que existiam à data, a Academia de Xadrez do Algarve e a Associação Desportiva e Cultural de Faro, mas também com outras colectividades que dinamizavam o xadrez fora da alçada da Federação Portuguesa de Xadrez, como o Clube de Pesca e Náutica Desportiva de Albufeira ou o Clube de Xadrez de Portimão. Talvez em 2014, soube da existência de um clube de xadrez no concelho, integrado na Associação Cultural de Alte, dinamizado pelo Amarildo Lima e outros xadrezistas que haviam pertencido ao clube de Albufeira. Senti muita simpatia pela ideia de tentar reanimar o xadrez na região, tanto mais que havia beneficiado desse apogeu e participado em vários campeonatos nacionais de jovens no Algarve. Era uma prova fantástica, com mais de 400 miúdos oriundos de todos os distritos e regiões autónomas, que durava uma semana nas férias da Páscoa… Por outro lado, o meu desempenho nos Amigos de Urgezes estava a ser bastante prejudicado pela distância: para jogar, ia com a Ryan Air até ao Porto e depois seguia de carro até Guimarães. Na última época fiz três jogos… e consegui três derrotas! [risos] Ainda assim, o Senhor Machado, responsável pelo clube, impôs uma condição: só aceitava a saída se fosse para reanimar o xadrez no Algarve, pois todo o país sente a falta do xadrez algarvio. Os MF António Vítor e Vasco Diogo, os MN Luís Rodrigues, Henrique Galvão e Nicholas Lanier, o João Pacheco, o Nuno Guerreiro, o José Paulino, o Tiago Candeias, a Bianca Jeremias, o Ricardo Duarte, o André Dionízio, que ainda recentemente esteve na selecção nacional de jovens, são todos bons exemplos de que há xadrez de qualidade no Algarve. E neste nível, os jogadores podem perder um pouco a forma, mas não desaprendem. E o facto de alguns já cá não residirem não significa que as sementes de onde germinaram não continuem por aí, nos cafés, nas colectividades e no seio das famílias… Voltando à pergunta, o ano passado a AC Alte suspendeu as suas actividades e os seus xadrezistas decidiram criar o Loulé ++ Clube de Xadrez das Torres do al-Gharb que também tem a sua sede em Alte, por ter sido este o ponto do renascimento do xadrez no concelho, contando para o efeito com o apoio importante da Câmara Municipal de Loulé (cedência de espaço e material de treino) e da Junta de Freguesia de Alte (material e apoio à competição). Actualmente temos também jogadores de Boliqueime e de Salir, e aulas em Benafim. Outra referência do xadrez no concelho é o Clube de Xadrez do Colégio Internacional de Vilamoura, embora não joguem federados nem sequer no desporto escolar.

 

Há algum método de trabalho para evoluir no xadrez?

O xadrez é como qualquer outra disciplina. A prática leva à perfeição. Eu só muito recentemente é que tive acesso a um treino formal e sistematizado. Até então pouco mais fazia que acompanhar um livro ou uma revista com um tabuleiro magnético. Agora há outras ferramentas à disposição. Só este ano, durante o curso de formação de treinadores, é que tive contacto, através do Paulo Costa, formador da FPX encarregue de formar os futuros treinadores algarvios, dos benefícios do Chessbase e outras ferramentas informáticas. De qualquer modo, falar com jogadores mais experientes sobre as nossas próprias partidas, buscando aí a identificação e a explicação dos nossos erros e o modo de os eliminar, é um bom caminho para aumentar a força de jogo. E utilizar qualquer site gratuito para treinar exercícios tácticos – para os iniciantes, não deixar peças desprotegidas e aproveitar as falhas na defesa do adversário é mais de meio caminho andado para a vitória.

 

Recomendas algum material?

Online, todos no clube jogamos em lichess.org, um plataforma totalmente gratuita, recheada de ferramentas (cursos de iniciação, exercícios de treino, possibilidade de jogar com pessoas de todo o mundo…) e sem qualquer publicidade. É excelente para jogadores de todos os níveis. Para jogadores iniciantes, é muito interessante o “How to beat your dad at chess”, do GM Murray Chandler, uma colectânea de combinações e xeques-mate, assim como as diversas obras dos MI António Fróis e Sérgio Rocha. Para jogadores que pretendam trabalhar o meio-jogo, além dos exercícios tácticos posso recomendar “Seja bem sucedido em 128 passos”, do MF José Padeiro. Também gosto muito do “The Amateurs Mind”, do MI Jeremy Silman, em que as mesmas posições são discutidas por jogadores de diferentes forças de jogo, e do “50 Essential Chess Lessons”, do Steve Giddins, que apresenta uma colectânea de partidas comentadas por temas. Para os finais, o Manual do Silman e “100 Endgames you must know”, de Jesus de la Villa. Quanto a aberturas, para jogadores avançados, o DVD do MF Luís Silva sobre a Najdorf é muito completo; o MI Jorge Viterbo também lançou um DVD sobre a Índia de Rei e sabendo o que sei dele, de certeza que é de excelente qualidade, embora neste caso, como esta abertura não esteja no meu repertório, não o tenha visto. Ainda com relação ao jogo, mas numa vertente menos técnica, “Chess for Zebras”, de Jonathan Rowson, pode ser um abrir de olhos para os xadrezistas mais avançados que se interessem pela parte psicológica do jogo. Para quem gosta de thrillers históricos e policiais, com enigmas e muita simbologia, “O oito” e a sequela “O fogo”, de Katherine Neville, vão ser uma agradável (e surpreendente) leitura que partindo de um tabuleiro de xadrez oferecido pelos mouros da Andaluzia a Carlos Magno com um segredo de alquimia para o domínio do mundo, percorre os tempos desde a Revolução Francesa até à actualidade…

 

O xadrez como fonte de um tesouro valiosíssimo, só na literatura, não? Ou é possível viver profissionalmente do xadrez?

Sim, é possível, mas não é fácil. Temos em Portugal quem o faça. Todavia, para ser um jogador profissional, com rendimentos assegurados apenas pela prática de torneios, é preciso estar na elite, e neste momento nenhum português está nesse nível. Os jogadores que jogam para o título de Campeão do Mundo têm um rendimento anual que passa o milhão de dólares. Em Portugal a realidade é outra. Os clubes não têm grandes fontes de financiamento e a modalidade não tem muitos mecenas. Daí que quem viva do xadrez tenha que complementar a vida de jogador com a de treinador, de escritor, de organizador... É pena, pois todas as gerações têm tido xadrezistas que, com apoio, poderiam ir muito longe. O MI Ruben Pereira, por exemplo, foi vice-campeão mundial no escalão sub-16, há cerca de dez anos. Actualmente é dentista e um dos melhores xadrezistas portugueses, mas não um dos melhores do mundo.

 

Quantas jogadas é que um Mestre de xadrez consegue antecipar? E tu?

Não faço ideia: ao que dizem, mais de uma dúzia e meia. No meu caso, muito menos e depende da posição. Apesar do motivo desta entrevista, sou um jogador amador e mediano. Basta ver que não estou, sequer, no top-100 nacional. O que não quer dizer que perca sempre que defronto jogadores que se encontram nesse patamar. [risos] Há situações – e dias, porque também depende muito da frescura física e mental – em que consigo ver até 6, 7 jogadas. Muitas vezes ao fim de 3 ou 4 já tudo começa a ficar enevoado, já não sei bem onde as peças estão… mas como alguém dizia, basta antecipar uma jogada de cada vez… se for a melhor! [risos] Creio que a intuição é importante para complementar a visualização e o cálculo, mas ela vem do trabalho, do estudo e posterior reconhecimento de padrões, não de qualquer inspiração divina.

 

Quais são os benefícios do xadrez?

É notório que a prática do xadrez estimula as faculdades intelectuais: a concentração, a memória, o raciocínio… Também ajuda a estruturar o pensamento, habituando o jogador a identificar problemas, alinhavar possíveis soluções e pensar nas suas consequências antes de agir. E é uma actividade lúdica, que cria prazer.

 

O xadrez melhora o rendimento escolar e a produtividade laboral?

Treinar xadrez tem uma consequência certa: permite saber mais sobre xadrez. Não consigo ir mais longe porque tenho dúvidas de que o mero treino garanta, sequer, melhores resultados desportivos. Uma coisa é ter conhecimento sobre uma determinada área; outra, diferente, é a capacidade de colocar esses conhecimentos em prática. Tenho dificuldade em responder a esta questão porque na minha experiência pessoal não há um antes e um depois do xadrez. Aprendi as regras na primária e participo em competições desde o ciclo. Não sei se as minhas notas e o meu percurso profissional seriam diferentes se não jogasse xadrez. Mas se calhar até estudaria de modo diferente. Muitos colegas apreendiam a matéria escrevendo e lendo, por vezes em voz alta, os seus apontamentos. Eu preferia sistematizar a matéria num fluxograma e memorizava-o. Quando chegava a um exame escrito passava o fluxograma para a folha de rascunho e dizia: “Bom, isto é tudo o que sabes. Vê lá em que resposta é que cada parte encaixa melhor!” [risos] Isto deve justificar as minhas notas… [risos] Mas sobre isto o melhor talvez seja os interessados lerem “A vida imita o xadrez”, do ex-campeão mundial Garry Kasparov que compara o processo de tomada de decisões no xadrez com aquele que qualquer pessoa faz no dia-a-dia.

 

A forma física tem implicações no desempenho intelectual?

Sem dúvida. Para manter o foco e a concentração durante mais de quatro horas é preciso estar em boa forma física. Não é preciso ser um atleta de alta competição, mas um corpo activo e vigoroso é a base de uma mente afiada e produtiva. Não é à toa que os antigos já diziam “Mente sã em corpo são”. Pratico krav maga (KMA/Amanhecer Selvagem) e floorball (Loulé Linces), e tenho melhores resultados no xadrez quando estou fisicamente activo. Curiosamente, recuperando a pergunta anterior, creio poder assentar é que o meu modo de pensar é muito semelhante nestas diversas actividades: quando jogo xadrez estou preocupado com a gestão do tempo disponível, com os objectivos do adversário, tento estar consciente dos alvos existentes na posição, tento ser profiláctico e manobrar de forma eficaz e eficiente; no krav maga ou no floorball são aplicáveis os mesmo princípios quanto à distância, ao espaço, ao posicionamento do adversário, à velocidade e intensidade de reacção...

 

Os homens são melhores xadrezistas que as mulheres?

Há mais homens que mulheres nos primeiros lugares dos rankings, mas daqui não se pode retirar mais do que isso, desde logo porque são diferentes as condições em que uns e outros jogam. Uma menina que aprende xadrez é capaz de o jogar com o mesmo sucesso que um menino. O que influencia a sua performance são factores exteriores, sociais e educacionais. Há casos de raparigas que se inibem ao jogar presencialmente com rapazes, provavelmente porque lhes foi dito, e elas acreditam, que os rapazes são melhores, mais fortes, etc. Foi feita uma experiência em que os alunos da mesma turma jogaram dois torneios, um frente a frente, com tabuleiro e peças, e outros sob anonimato, online. O resultado das raparigas foi superior quando não sabiam com quem estavam a jogar. Outro factor importante é o do abandono precoce: as raparigas são menos propensas a continuar a jogar durante a adolescência, provavelmente por terem outros e novos interesses, enquanto os rapazes se tornam mais competitivos. No escalão sénior, as tarefas domésticas e familiares, que muitas vezes não se encontram bem distribuídas, também prejudicam mais as mulheres. Devo confessar que ao longo do campeonato fui muitas vezes dispensado dos meus afazeres com um simpático “vai lá para os teus vídeos e para os teus exercícios que eu trato do jantar”. Noutras circunstâncias menos compreensivas, muito provavelmente o entrevistado seria outro. [risos] O certo é que quando as mulheres conseguem manter o foco no xadrez tal como fazem os homens, também têm resultados extraordinários. A GM Judit Polgar que juntamente com as suas duas irmãs foi educada em casa pelos pais, psicólogos que queriam demonstrar que era possível criar génios xadrezistas, é um exemplo do que acontece quando há dedicação e trabalho: foi a primeira rapariga a vencer o campeonato do mundo para menores de 12 anos; aos 15 anos bateu o record de Bobby Fischer sendo, à data, o Grande Mestre mais novo da História; aos 17 anos venceu um match de 10 partidas ao ex-campeão do mundo Spassky; chegou ao top-10 mundial… e aos 28 anos retirou-se da competição para ser mãe. A sua irmã mais nova, Susan, também obteve o título de GM e a irmã do meio, Sofia, obteve o título de Mestre Internacional.

 

Quais os objectivos para o resto da época?

Depois de termos garantido a manutenção na III Divisão Nacional com a equipa principal, queremos que o clube se sagre campeão distrital por equipas no ritmo clássico (partidas de 90 minutos por jogador com incremento de 30 segundos por lance), como o conseguiu fazer no ritmo rápido (partidas de 3 minutos por jogador com incremento de 2 segundo por lance).

 

E planos para o futuro?

Estabilizar o funcionamento do Loulé ++ que, com cerca de 9 meses de vida, ainda funciona de modo precário, por falta de um local próprio para desenvolver as suas actividades com horários mais flexíveis. Aumentar os actuais 31 xadrezistas federados do clube e ajudar a formar novos jogadores, para que os futuros campeões distritais sejam mais fortes que o actual. Subir à II Divisão em Portugal, com o Loulé ++, e à División de Honor, na Andaluzia, com o CA Esuri. E, quem sabe, voltar a trazer uma grande competição, como os Campeonatos Nacionais de Jovens, e as suas centenas de participantes, ao Algarve e a Loulé.

 

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Se quem nos lê estiver interessado, que venha jogar connosco e nos acompanhe quer na página do facebook «Torres de Loulé» quer no nosso site www.loulemaismais.pt

 

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O prazer foi meu!

 

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