benefícios do xadrez

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Os outros benefícios da prática do xadrez Juan Antonio Montero - traduzido e adaptado*

Que o jogo do xadrez favorece as funções intelectuais como a atenção, a memória, a capacidade de percepção ou o raciocínio, está fora de qualquer dúvida.

A medida desse benefício é que não é clara; mas vários estudos, além da observação empírica, permitem afirmar que a prática deste jogo produz evidentes benefícios ao nível cognitivo dos mais pequenos. Quando se joga xadrez, qualquer pessoa pode apreciar como os xadrezistas se fecham num processo em que põe em actividade máxima a sua concentração, como estado mais puro de atenção, o exercício da memória ou a tentativa de raciocinar da forma mais profunda possível...

Todavia, há outros benefícios que se podem manifestar muito rapidamente. "Podem" porque estes benefícios não se produzem pela mera prática do jogo, tendo, antes, que ser fomentados pelos treinadores e pelos pais. São eles (1) o crescimento pessoal, (2) a aquisição de valores e (3) a adopção de um incipiente modo de pensar estratégico.

1) Crescimento pessoal

O xadrez favorece a aquisição e o treino de capacidades emocionais, como o auto-controlo, a auto-estima, a auto-crítica ou o desejo de superação, que favorecem o crescimento pessoal da criança e a estabilidade emocial do adulto.

Para se compreender melhor o que significa cada um daqueles conceitos, vamos socorrer-nos das palavras de alguns Grandes Mestres de xadrez que são elucidativas:

Auto-controlo (Mikhail Tal)

Comecei a melhorar nos momentos cruciais de uma partida quando descobri que o meu oponente, no mínimo, estava tão nervoso quanto eu.

Auto-estima (Tarrasch)

Quem assume riscos pode perder, como me aconteceu por vezes. Mas devo fazê-lo, porque quem nunca corre riscos, no xadrez como na vida, perde sempre.

Auto-crítica (Tartakower)

Só um jogador forte sabe quão débil é o seu jogo.

Motivação (Karpov)

As derrotas fazem-me reagir com força; em vez de me levarem o ânimo, activam a minha fúria desportiva.

O xadrez é, na verdade, um jogo muito solitário, ainda que se compita com outra pessoa. Já houve quem dissesse que o verdadeiro adversário numa partida de xadrez é o próprio xadrezista. E disse-o porque percebia que tinha que lutar contra as suas limitações, contra os seus medos, contra as suas manias...

No xadrez, a culpa pelos maus resultados não pode ser atirada para os colegas de equipa, para o árbitro que decidiu mal ou para o azar que veio com a rajada de vento. O xadrez leva à auto-superação pessoal através da auto-superação desportiva, ajuda o xadrezista a conhecer-se a si mesmo e ensina-o a apreciar o valor do esforço, pois há poucas disciplinas como esta onde realmente se possa verificar tão claramente que o trabalho produz resultados.

2) Aquisição de valores

Nos dias de hoje, é recorrente dizer-se que as comunidades atravessam uma crise de valores, ou pelo menos que andam à procura de outros (ou outras definições do que é justo e injusto, certo e errado, bom e mau...) que se sejam mais adequados à evolução da sociedade moderna que se encontra moldada pela globalização económica, o neoliberalismo, o individualismo e o progresso tecnológico, entre outras características.

Juan António Montero, psicólogo, director da revista electrónica "Ajedrez social e terapéutico" e Presidente e coordenador dos programas sociais e terapêuticos do Club Magic Extremadura, defende que, bem gerido, o xadrez pode fomentar valores muito recomendáveis que podem contribuir para a formação de melhores pessoas e melhores cidadãos.

Exemplifica com uma estória da Oficina de Xadrez que o Club Magic Extremadura dinamiza, desde 2010, no Centro de Cumplimiento de Medidas Judiciales Marcelo Nessi, em Badajoz, um espaço para delinquentes juvenis.

No primeiro ano, com a primeira geração de alunos, foi planeada realizar um encontro inter-geracional de xadrez, com seniores de um centro próximo onde o clube também realizava um projecto de envelhecimento activo através do xadrez. O objectivo? Que os gerontes transmitissem aos adolescentes valores, aceitação e respeito.

A proposta da ideia - que ainda por cima se iria realizar numa das saídas vigiadas que tinham programadas a cada dois meses - foi recebida com comentários não muito simpáticos: "Vão-se lembrar dos movimentos das peças?", "E se algum adormecer?", além de outros um pouco mais bruscos. Mas quando o projecto passou a definitivo e a data se aproximava, as coisas começaram a mudar. Começaram a notar-se alguns nervos, receio de serem rejeitados... recorde-se que se tratava de jovens delinquentes - sentiam-se fortes em certos ambientes, mas aquele começava a deixá-los um pouco nervosos.

A experiência foi extraordinária, tanto, que se tem vindo a repetir anualmente. Eis a nota que um rapaz, bastante problemático, escreveu sobre aquela primeira visita: "Na quinta-feira, 14 de Abril, o monitor de xadrez Juan Antonio realizou uma saída ao exterior (ao Hogar del Pensionista). Ao chegar ao centro estavam à nossa espera cinco pessoas, com os seus tabuleiros e peças montadas sobre a mesa. O monitor fez as apresentações e já se respirava um bom clima, tendo o monitor escolhido quem iria jogar com quem. Havia um pequeno inconveniente porque os maiores eram cinco e os jovens 4, mas eles resolveram, fazendo descansar um jogador em cada partida. No início do encontro cumprimentámo-nos com cortesia e fizemos várias partidas. No final deram-nos pequenas lembranças como prémio, mas para mim e para os meus companheiros o grande prémio foi poder sair e desfrutar desta saída no Centro de Dia."

3) Aquisição de um modo de pensar mais estratégico

O xadrez é um jogo com uma componente estratégica - que se começa a adquirir logo que se tem os conhecimentos mais básicos - muito notória, motivo pelo qual é comum fazerem-se muitas metáforas com outros âmbitos da vida. Aliás, sobre estes paralelismos, o ex-Campeão do Mundo Garry Kasparov escreveu recentemente «A Vida Imita o Xadrez», editado em português pela Gestão Plus, facilmente disponível nas livrarias.

Uma das comparações mais comuns é com o mundo empresarial, onde há diferentes postos de trabalho com distintas funções inseridos numa pirâmide hierárquica muito marcada; ou com um exército - aliás, criou-se precisamente uma imitação de um exército medieval -, com uma massa de infantaria, corpos de tropas especiais, etc.

Sobre estas peças é possível estabelecer muitas ideias relacionadas com a estratégia, e ainda que sirvam para explicar xadrez, vão sendo paulatinamente introduzidas na mente do xadrezista: manter as peças coordenadas; os cavalos no centro controlam mais casas e, portanto, mais espaço; o desenvolvimento deve ser concluído o mais depressa possível; é bom ter a iniciativa; é bom ocupar as casas fracas do adversário... em poucas actividades se fala de uma forma tão natural com conceitos tão estratégicos. E pensar (e agir) de modo estratégico é muito bom: como disse um pai empresário a monitor de xadrez do seu filho, "Eu não quero que o meu filho seja muito bom ou chegue a Grande Mestre de xadrez. O que quero é que aprenda a planificar, a analisar as coisas, a prevenir-se dos movimentos dos outros, que se habitue a pensar que "se eu faço isto, ele faz..."

*Juan Antonio Montero, "Ajedrez Terapéutico y Social - Los otros beneficios de la práctica del ajedrez", Capakhine - revista de ajedrez para niños y sus padres, n.º 1,  pp. 16-20.