do chaturanga ao xadrez

Do chaturanga ao xadrez, da Ásia à Península Ibérica.

Um resumo da história do jogo com base em:

  • Anselmo Ansur, O Jogo Real, Lisboa, 1926
  • Fernando Castro, História do Xadrez de Competição em Portugal, recuperado de http://historiadoxadrez.net (https://web.archive.org/web/20110121051317/http://historiadoxadrez.net/)
  • João Pacheco, História da Associação de Xadrez de Faro
  • José Paulino, Algarve Xeque - Revista do Xadrez Algarvio, ano II n.º 8, Out-Dez 1999
  • Sérgio Rocha e António Fróis, Campeões Mundiais de Xadrez - 1886 a 2010, Clube de Xadrez do Barreiro, 2010
  • Fred Wilson, A Picture History of Chess, Dover Chess, 1981

 

O Algarve sempre teve xadrezistas de eleição, sendo vários os títulos individuais e colectivos que, ao longo das últimas décadas, foram atribuídos pela Federação Portuguesa de Xadrez a jogadores e clubes do distrito de Faro, onde, nos anos 90, os campeonatos nacionais de jovens se realizaram anualmente.

Mas pode-se recuar muito, muito mais, no tempo para perceber por que é que a relação entre a região e a modalidade, às vezes muito intensa, outras mais espaçada, nunca foi radicalmente rompida.

O xadrez é um jogo milenar cuja origem não é claramente conhecida. A maior parte dos Autores sustenta que a sua raiz é o chaturanga – que significa qualquer coisa como «As quatro divisões» do exército (a infantaria, a cavalaria, os elefantes e as carruagens, comandadas pelo Rei coadjuvado pelo seu conselheiro) –, jogo que se praticava no século VII na zona da actual Índia. (De acordo com Alfredo Ansur, O Jogo Real, Lisboa, 1926, p. 3, foi Hyde, de Oxford, quem primeiro apresentou esta tese, na obra "De Ludus Orientalibus, 1694").

Correntes minoritárias colocam os jogos predecessores do xadrez noutros patamares geográficos, uns na zona do actual Irão/Azerbeijão, outros na da China onde já no século III se jogaria uma versão do xiangqi.

tumulonefertari

Baixo relevo do túmulo da rainha egípcia Nefertari (1295-1255 AC)

Estaria a rainha a jogar um tetra-avô do xadrez há mais de 3.000 anos?

"We do not know and probably never will" - Fred Wilson, ob. cit., p. 1.

De acordo com a corrente maioritária, o chaturanga da Índia chegou à Pérsia, onde ficou conhecido por chatrang, e quando esta foi conquistada pelos árabes, o jogo espalhou-se pelo norte de África sob a designação de shatranj.

origem do xadrez

O nome do jogo, tal como as regras, continuou a sofrer alterações de acordo com a fonética e a ortografia dos povos que o receberam, e o chaturanga, que no nordeste africano já era designado por shatranj, no noroeste ficou conhecido por shaterej.

A conquista da península ibérica pelos muçulmanos, a partir de 711,  serviu como porta de entrada do shaterej na Europa, evoluindo no al-Andalus para ajedrez e no al-Gharb, o ocidente andaluz, para xadrez.

["É provável que os Hespanhoes recebessem o jôgo dos Mussulmanos, os Italianos dos Bysantinos e por essas circumstancias passasse para os Francezes e para a Scandinávia e Inglaterra. Em todo o caso, é insustentável a opinião de que foi introduzido na Europa pelos Cruzados por o terem aprendido em Constantinopla; pois a carta escripta em 1061 pelo Cardeal Damião, bispo de Ostia, ao Papa Alexandre II, prova que tal jôgo era já conhecido no Occidente antes da 1.ª Cruzada" - Anselmo Ansur, ob. cit., p. 4]

 

Na Europa central e oriental, os pontos de contacto com outras comunidades árabes fizeram com que o nome do jogo mantivesse uma ligação à fonética original: a designação shatranj foi substituída por versões da palavra persa shah (Rei) que também foi acolhida no latim (ludis scaccorum, jogo dos reis), sendo o jogo conhecido actualmente na Itália por scacchi, na Holanda por schaken e na Alemanha por schach. Em português, esta linha evolutiva também teve influência na criação do glossário da modalidade: o famoso «Xeque!» é um aviso dirigido ao sheik, o soberano, e o sempre desejado xeque-mate, de shah mate (o Rei não pode escapar), determina o fim da partida.

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["Pensam alguns que o taboleiro representa dois exercitos em batalha (...) [e] o xadrez foi ordem de batalha na Grecia. A phalange em batalhão quadrado deu a Phillipe e Alexandre grandes vantagens. Nos bellos tempos da milicia romana, o xadrez era tambem o principio fundamental da tactica dos manipulos e legiões. Massas profundas de infanteria, alinhadas, constituiam sempre um quadrado pleno. Para os acampamentos e batalhas, Julio Cesar escolhia a forma quadrada (Encyc. Method. Art. Militaire, v. Castramentation, pag. 351 e seg., fig. 142, 146)" - Anselmo Ansur, ob. cit., p. II]

 

O xadrez, tal como o conhecemos hoje, foi sendo desenvolvido pelos seus praticantes ao longo de vários séculos, com a introdução e a dispersão de novas regras que foram sendo aceites pela comunidade internacional de xadrezistas.

As primeiras alterações registadas foram a possibilidade de avanço do peão duas casas, quando na posição inicial, que teve como consequência a invenção da captura en passant. Também se permitiu que o Rei pudesse andar duas casas em determinadas circunstâncias, o que está na base do roque.

Foi no al-Andalus, território hoje integrado na Andaluzia e no Algarve, que surgiram alguns dos mais destacados praticantes e teóricos do jogo. Algumas fontes indicam Xannabus ou Xanbras (Silves? Estômbar? São Brás de Alportel?) como local de nascimento de Ibn Ammar, poeta, político e xadrezista que no século XI, ao vencer uma partida ao Rei Afonso VI de Castela, o terá convencido a desistir de tentar conquistar a taifa de Sevilha, governada pela família dos Abádidas.

"Depois de Ali, o primeiro europeu que [mencionou o xadrez] foi Moses Sephardi, nascido em Hespanha em 1062 e baptisado aos 44 annos com o nome de Pedro Afonso. Na sua «Disciplina Clericallis» inclue o xadrez nas sete prendas de um perfeito gentilhomem." - Anselmo Ansur, ob. cit., p. 32.

Uma das primeiras obras escritas sobre xadrez (Libro de los Juegos – Libro de Acedrex, Dados e Tablas, mandado compilar pelo Rei Afonso X de Leão e Castela) foi precisamente escrita em Sevilha, no século XIII, sendo que na última folha (a 64.ª, tantas como as casas do tabuleiro) do livro dedicado ao xadrez está contemplada precisamente aquela estória de Ibn Ammar e Afonso VI.

Libro de los Juegos

"O Tratado de Juegos de el-rei Dom Afonso el sabio é exemplar unico em todo o mundo e conserva-se na Bibl. do Escurial. É mais que um livro; é um archivo, diz José Brunet, onde se podem estudar as variações do xadrez melhor que nos livros indios, persas ou arabes." - Anselmo Ansur, ob. cit., p. 34.

A Península Ibérica foi o local onde a modalidade foi mais pulsante até ao Renascimento, com uma comunidade de xadrezistas encabeçada por Pedro Damiano, de Odemira, e Ruy Lopez, de Segura, este último o inventor da célebre e actual Abertura Espanhola.

["... tambem o jogava em viagem o nosso Dom João 2.º (vej. Chronica de Garcia de Rezende, cap. 201). Foi muito considerado entre nós, quando os «maiores jogadores eram Portuguezes e Hespanhoes, por ser a Iberia a terra classica d'esse recreio», como declara Jaenisch (Analyse Nouvelle des Ouvertures, Tomo I, pag. 35)" - cfr. Anselmo Ansur, ob. cit., p. 11]

 

Pedro Damiano, farmacêutico, foi um dos primeiros teóricos portugueses. Era judeu e foi expulso do território nacional, tendo a sua obra "Questo libro e da Imparare Giocare a Scachi" sido publicada em Roma no ano de 1512. Nela advoga que a melhor resposta a 1. e4 e5 2. Cf3 é 2. ... Cc6, explicando que 2. ... f6 é muito mau para as Pretas devido a 3. Cxe5. No entanto, foi precisamente esta defesa que recebeu o seu nome. Por outro lado, o famoso adágio normalmente atribuído a Lasker (1868-1941) "Quando encontrares uma boa jogada, procura por outra melhor" consta do livro de Damiano publicado em 1512: "Le regule universale: (...) Si hai bon trato per la mano se nesia altro megliore" (ver a página 9 aqui)

damiano

["It went through seven editions before 1561 and was the only real chess instruction available before Ruy Lopez's work" - Fred Wilson, ob. cit., p. 11]

 

Os jogadores já eram identificados como Brancas e Pretas, embora nos primeiros escritos fossem referenciados como Vermelhas e Pretas, por serem estas as cores das tintas mais comuns ao dispor dos escribas para desenhar os diagramas, sendo as peças identificadas pela sua abreviatura - sistema que ainda hoje é utilizado na notação algébrica. Em baixo, um exemplo de ilustrações medievais francesas (ver mais).

Ilustrações medievais em francês

Foi na Europa, em meados do século XV, que o xadrez atingiu o seu estado de evolução actual, por influência das rainhas europeias e da igreja católica: foi aí que a Dama, o Conselheiro/Vizir do chaturanga, deixou de poder andar apenas uma casa na diagonal, ganhou mobilidade, podendo movimentar-se quantas casas desejasse, desde que as linhas de ataque estivessem livres; e o mesmo se diga quanto aos Bispos, que substituíram os Elefantes que, no início, andavam duas casas na diagonal, saltando qualquer obstáculo que estivesse na primeira.

O jogo tornava-se assim mais rápido, já que com a maior mobilidade das peças, o xeque-mate surgia em menos jogadas.

Peças de Lewis

Peças encontradas em Lewis, em 1831, encontram-se no Museu Britânico e terão origem na Noruega no século XII.

Naturalmente, a evolução do jogo não foi homogénea e apesar de se ter conseguido uniformizar as regras internacionalmente, os nomes das peças mantêm particularidades:

- A infantaria do chaturanga deu origem ao peão (em alguns países com o significado de soldado de infantaria, noutros, como na Alemanha (bauer) e na Espanha (peón), de agricultor);

- A cavalaria indiana ficou associada aos cavalos (em algumas línguas com o significado de cavaleiro (knight, em inglês), noutros como cavalo de salto (springer, em alemão);

- Os elefantes deram origem aos bispos (em alguns locais, aos bobos da corte – Fou, em francês -, aos mensageiros – goniec, em polaco -, aos atiradores – strelec, na República Checa). Em Espanha, o bispo ainda se chama alfil, de al-fil, o elefante);

- As carruagens tornaram-se torres (tour em francês; em russo traduzem-se por navios (ladya), em indonésio como castelos (benteng), na Estónia como vagões (vanker));

- O conselheiro/vizir passou a Rainha ou Dama (Donna, em Itália), embora fora da Europa haja alguns países que identifiquem esta peça no género masculino. Mesmo na Europa, na Estónia esta peça traduz-se por bandeira (lipp). Na Rússia (ferz) e na Turquia (vezir) o nome da peça ainda está próximo do firz original. No século XV esta peça ganhou mobilidade e alcance, destronando a Torre como peça de ataque mais valiosa;

- O rei é que sempre se manteve rei, embora em alguns casos com neologismos (no Japão é kingu, do inglês king).

"A Europa Occidental estropiou completamente a nomenclatura dos trebelhos. O general, ou vizir, que nas linguas russa e persa se chama ainda ferz, foi transformado, primeiro em fierche, depois em vierge e finalmente em dama (ou rainha em portuguez). Do elephante (em russo, slone, e em arabe al fil) fizeram os italianos alfiero e os francezes le fil, depois le fol, e, finalmente, fou (que corresponde a bispo, ou arfil, em portuguez). O fou não corresponde, pois, ao bobo, que tinha grande valimento e privança nas côrtes antigas. Quanto aos carros de guerra indianos (tôrres), os antigos russos, por uma bizarra confusão de idéas, os consideravam navios (ladu) (Jaenisch citado, Analyse Nouvelle des Ouvert, vol. I, pag. IX). De tudo isto resulta que as rainhas e os bispos são a representação histórica de generaes e elephantes. E que assim não fôsse, mal poderia considerar-se sambenito o que justamente é gala. Sob outro aspecto, não merece foros de democratica uma organização em que qualquer infimo peão pode transformar-se em testa coroada, e até, sendo predestinado (ou coiffé, como dizem os francezes) desempenhar o papel terrifico de Cromwell na republica ingleza? O xadrez é, portanto, um campo neutro que satisfaz amplamente todos os credos politicos." - Anselmo Ansur, ob. cit., pp. 37-38.

 

Peças Staunton

["Muito se illude quem considerar o Xadrez um simples jogo. Ponte pensil que leva a raça humana a um estado mais digno, é a cristalisação millenaria do Heroismo e da Justiça, da Intelligencia e da Virtude. E, todavia, falta-lhe representar as duas armas modernas: - aeronaves e submarinos - e ser creador em vez de destructor, para harmonizar-se com a Liga das Nações e o ideal pacifista moderno. (...) Seja qual fôr a evolução do futuro, deve conservar a possança das Damas actuaes. A Natureza as bem fadou para se medirem, a toda a hora, com os homens, em luctas vitaes, em que a victoria é sempre d'ellas. Debalde pertendem os vencidos desforrar-se. Veem as suas altivas Torres capturadas e alfim abatidas.

Como hoje, assim succedeu desde os tempos de Esther, Dálila, Judith e rainha do Sabá. Só por excepção foram derrotadas Arthemisia em Salamina e Cleopatra em Actium. Mas da 1.ª (e suas aias) disse Xerxes (que presenceara a batalha d'um outeiro proximo) «combateram como homens, e os homens como mulheres». Quanto à 2.ª, não jungiu ao seu carro triumphal esses grandes cabos de guerra que se chamaram Cesar e Antonio? Quem ignora que Briseida paralisou Achilles durante 10 annos? (...) Um dos Catões disse muito bem: « Governamos os homens, mas as mulheres nos governam, e por isso governam tudo». São tão dotadas as damas de tão mirifica virtude que, mesmo derrotadas no xadrez de Cythera, operam, suicidando-se, revolução estrondosa, - exemplo a romana Lucrecia. Mesmo depois de mortas no xadrez político, logram coroar-se rainhas, - exemplo a portugueza Castro. O inato valor feminino é tanto, que nem carece de longos treinos! Até mostra a experiencia que são as mais noviças as mais irresistiveis, - exemplo: a xadrezista portugueza Silvia de Lizardo. Felizes, portanto, aquelles que possam dizer dos Escaques o que Schoppenhauer das Upanichadas disse: «Foram-me encanto em toda a juventude e serão a consolação da minha velhice.»" - Anselmo Ansur, ob. cit., pp. X-XI]

Apesar de no século XV a Península Ibérica ainda ser um importante centro xadrezístico onde várias obras relativas ao jogo foram publicadas, especialmente sobre aberturas e finais (veja-se, por exemplo, a «Repetición de Amores y Arte de Ajedrez», de Lucena), com o apogeu do Renascimento, também o xadrez passou a bater mais forte em Itália, com Paolo Boi.

Depois, com o Iluminismo, a modalidade atingiu novo apogeu em França, com André Philidor, também músico famoso.

O Século das Luzes trouxe as primeiras tentativas para criar uma máquina capaz de jogar xadrez. Em 1769, um engenheiro húngaro criou " O Turco".

turco

Esta máquina parecia um robot capaz de jogar xadrez através de um mecanismo que estava por baixo do tabuleiro. Na verdade, aí havia espaço para um xadrezista de pequena estatura controlar as peças através de imans.

No século XIX, o xadrez recebeu novo impulso, com a criação de vários clubes dedicados à sua prática, a publicação de várias obras com partidas e análises, e com a sua divulgação nos jornais, designadamente através da publicação de problemas.

The Illustrated London News 1856

Durante o Torneio de Londres de 1851 suscitou-se a questão relativa ao tempo que os jogadores demoravam para fazer os seus lances. Nos anos seguintes começaram a utilizar-se ampulhetas para limitar o tempo disponível por jogador, e as regras passaram a aceitar mais um modo de terminar a partida: além do xeque-mate e do abandono, era agora possível ganhar-se uma partida por tempo, no caso de o oponente gastar todo o tempo, previamente estipulado, que tinha disponível.

As ampulhetas deram lugar aos pendulos, e mais tarde foi acrescentado aos mostradores uma patilha vermelha, a chamada "bandeira", que caía quando o tempo se esgotava, ajudando então a perceber quando a partida finalizava por tempo. No final do século XX surgiram os actuais relógios electrónicos.

Relógio com bandeiras (GX Porto, 1940)

O Torneio de Londres foi ganho pelo alemão Anderssen que tinha um estilo de jogo muito atacante. O seu domínio terminou com a ascensão do estado-unidense Paul Morphy que entre 1857 e 1863 surpreendeu o mundo xadrezístico ao juntar ao estilo atacante de Anderssen considerações posicionais.

No final da década de 70 do século XIX assiste-se em Portugal a um ressurgimento da modalidade, com o Diário de Portugal a apresentar uma secção de xadrez assinada por Luiz Sarrea.

Em 1886, a vitória de Steinitz num match contra Zukertort, realizado em Nova Iorque, é tido como o I Campeonato do Mundo. O primeiro Campeão é tido como o pai da escola de xadrez posicional, "um modelo de jogo baseado na estratégia, na criação de um plano sem grandes necessidades de complicados cálculos," após ter descoberto "que ataques ferozes e brilhantes só eram eficazes perante uma defesa muito fraca". Introduziu "o conceito de «ataque fundamentado» dando início assim à chamada era do Xadrez Moderno" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Lasker vs Steinitz, 1894

Lasker vs Steinitz, 1894

Steinitz perdeu o título em 1894 para Lasker que o manteve durante 27 anos, o maior reinado de um campeão mundial. Doutorado em filosofia e matemática, "possuidor de uma poderosa capacidade intelectual e de uma enorme confiança em si mesmo, (...) foi o primeiro a compreender a importância da preparação de uma partida ou de um torneio, e foi também o primeiro a falar na profissionalização do xadrez" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

No início do século XX, o jurista Alfredo Ansur publica "O Jogo Real", obra que permite conhecer um pouco a comunidade xadrezística existente no país e que tem sido citada neste texto. Versado, por formação, nos clássicos, o autor justifica deste modo a sua obra (pp. 12-13):

"Do xadrez, todavia, que em tanta honra esteve outrora em Portugal, tendo cultores tao reputados como El-Rei Dom João II, Damião e Rezende: o xadrez, esse magnifico, explendido condensador das faculdades intellectuaes: do xadrez, craveira e barometro infallivel para medir a altitude intellectual das nações: do xadrez, objecto de tantos congressos internacionaes e torneios univeraes, que cada vez mais se multiplicam entre cidades e Universidades (como as de Oxford e Cambridge), entre clubs, entre os membros do Parlamento inglez e até entre os continentes: do xadrez, de que se pensa até realisar certame em que tomem parte centos de milhares de jogadores, - não existe um bom tratado completo, original portuguez! E nada ácerca d'elle se escreve.

["Além do velho Damiano, cuja obra tem dado logar a tão eruditas discussões no British Chess Magazine, tenho ouvido fallar em poucos elementos de bibliographia portugueza de xadrez: 100 paginas no Tomo V da Academia dos jogos, publicada em Lisboa em 1806; o Tratado para curiosos de 1825; o Perfeito jogador do Desembargador Oliveira, com additamento (Rio de Janeiro 1850 e 1851); Regras e observações traduzidas de Philidor por um anonymo (Lisboa 1842), o Manual dos jogos de A. T. da Cruz (Lisboa 1871) (...) e o Tratado brasileiro de Arthur Napoleão. Quanto a jornaes, no 1.º volume do Echo Americano (Londres 1871 e 1872), publicou Henrique Meyer 18 problemas e 11 partidas. Em 1879, a Revista Musical e de Bellas Artes do Rio inseria uma secção dirigida por Arthur Napoleão. O Diário de Portugal do mesmo anno inaugurava partidas e problemas sob a direcção de Luiz Sarrea. Finalmente, o Diario Ilustrado, os Serões, o Tiro e Sport, e Os Sports teem-se occupado algum tanto no xadrez. Apesar de tudo, não ha ainda, infelizmente, nem no Mundo das Partidas, nem no dos Problemas, campeão portuguez que tenha cotação mundial." - pp. 24-25]

O mercado nacional bem pouco incita a supprir essa lacuna (largamente compensada, aliás, pela immensa litteratura estrangeira da especialidade). Tambem não conta em Portugal poderosos e dedicados Mecenas, como os principes da Mingrelia e de Monaco, o barão Alberto de Rotschild, etc, etc. É todavia o xadrez de tal profundeza e importancia que a sua cultura, se não caracterisa, por fórma absoluta, a supremacia dos povos civilisados (como é muito sustentável), pelo menos (a historia o demonstra) augmenta ou diminue, com o seu desenvolvimento."

O Jogo Real, de Alfredo Ansur

[Numa referência que é bem actual, mutatis mutandis, o autor refere que "Quanto a orthographia, apezar de termos seguido rigorosamente a official no ultimo livro que publicamos este anno - «Pequeno Estudo sobre o Confucio» - não simpatisamos com ella, por ficarem os vocabulos, em grande numero, filhos de paes incognitos. Por isso vae este com uma especie de orthographia mixta, mais propensa para a antiga. (...) O Brazil perdoar-me-ha (...)" - p. XV]

 

"O Jogo Real" contém partidas portuguesas e estrangeiras, "principios fundamentaes para jogar bem", "theoria dos finaes de partida", "theoria resumida dos começos" (das aberturas), uma parte dedicada aos problemistas, outra a uma colectânea de estatutos de associações e de clubes estrangeiros, bem como regulamentos de torneios e tabelas de emparceiramento, e termina com uma recolha de obras poéticas sobre xadrez (dos séculos XII e XVI), com a história da criação da Liga de Xadrez Allemã e de quatro torneios jogados em Portugal.

A comunidade xadrezística era pequena, havendo todavia notícia de grupos em Lisboa, no Grémio Literário, onde pontificam, entre outros, Baldaque da Silva, António Pereira Machado e Luiz de Mascarenhas, e na Régua onde se destacava o médico Júlio Carvalho Vasques.

No ano de 1911 realizou-se o I Campeonato de Portugal, no Grémio Literário, que foi ganho por António Maria Pires. Durante essa década apareceu outro forte jogador em Évora, o professor Francisco Ramos.

José Raúl Capablanca, 1920

José Raúl Capablanca, 1920

Em 1921, o cubano Capablanca, um especialista em finais com poucas peças, ganhou o título a Lasker durante um período de 8 anos em que esteve invicto. Conhecido como "A Máquina de Xadrez" devido à "aparente facilidade com que derrotava os adversários (...) é tido como um dos Campeões Mundiais mais admirados e lendários da história do xadrez. [Em sua] homenagem, o Dia Mundial do Xadrez é celebrado a 19 de Novembro, dia do seu nascimento. [Contrariou] a tese de Lasker e afirmava que não era necessário conhecer o adversário, mas sim a posição, considerando o xadrez como uma ciência, uma arte ou um desporto." - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Por cá, em 1926 joga-se o II Campeonato de Portugal, que foi ganho por Mário Pereira Machado. No ano seguinte é realizada, no Grémio Literário, em Lisboa, uma assembleia geral "de amadores de xadrez portugueses", promovida por Mário Pereira Machado, representante do jogadores do Clube Portuense, para fundar a Federação Portuguesa de Xadrez. Estiveram também presentes João Maria da Costa, em representação dos xadrezistas de Alpiarça; Carlos Rombert (Grémio Literário, Lisboa); Vicente Mendonça, Martinho da Rocha, Artur Silva e Aurélio Miranda. Nesse mesmo ano a FPX é filiada na FIDE que havia sido fundada quatro anos antes.

Ainda no ano de 1927, sagrou-se Campeão Mundial o soviético Alexander Alekhine. "As suas principais características no jogo eram um enorme trabalho de preparação, uma energia sem limites no tabuleiro e uma determinação «paranóica» de ganhar, tudo isto junto a uma enorme capacidade de trabalho" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

A FPX que não tinha conseguido verdadeiramente arrancar, por ter falhado a ligação entre os jogadores de Lisboa e os do resto do país, recebe um novo impulso no início da década de 30 com a publicação da revista Estratégia, cuja redacção ficava na Rua do Almada, no Porto, e a criação do Grupo de Xadrez de Lisboa, na Sociedade de Geografia, que funcionava todas as tardes e chegou a ter mais de cem associados.

Revista Estratégia

Nos anos de 1935 e 1936, Portugal participou nos Grupos Eliminatórios da Primeira Olimpíada Europeia por Correspondência, tendo terminado em segundo lugar no Grupo C, que foi ganho pela Suíça, e fazendo melhor que França, Itália, Espanha e Holanda B.

Entretanto, Alekhine perdeu o título em 1935 para o holandês Max Euwe. O quinto Campeão Mundial "realizou um importantíssimo trabalho para o xadrez ao estudar profundamente os problemas da transição da abertura para o meio-jogo, assim como na elaboração da teoria dos finais. (...) Foi um símbolo da época da revolução científica e tecnológica, o começo da era atómica e do computador" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Alekhine recuperou novamente o título mundial em 1937, ano em que a Federação publica o primeiro número da sua Revista onde são mencionados os Grupos de Xadrez da Póvoa de Varzim e de Coimbra.

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Em 1939, joga-se a Fase Final da Olimpíada por Correspondência, na qual Portugal termina em quarto lugar.

No dia 6 de Maio de 1940, numa altura em que a corrente hipermoderna do xadrez (representada por Nimzowitsch e Réti que defendiam o controlo do centro do tabuleiro com peças, em vez de peões, como era mas comum até então) ditava cartas, foi fundado na Cave do Café Monumental, no Porto, o mais antigo clube de xadrez de Portugal ainda em actividade, o Grupo de Xadrez do Porto.

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Alekhine, Campeão do Mundo em título, esteve, no início de 1940, três semanas em Lisboa, onde fez várias simultâneas, a primeira delas às cegas, no Estoril Palace Hotel, contra 8 dos mais fortes jogadores nacionais, tendo vencido todas as partidas.

No dia 1 de Fevereiro de 1940, Alekhine jogou uma simultânea a 40 tabuleiros, que durou 8 horas e meia, tendo terminado às 5:50 horas da madrugada seguinte, com o Campeão Mundial a perder 3 jogos e a empatar outro, vencendo todos os restantes.

Nesse ano realizou-se o III Campeonato de Portugal que consagrou João de Moura.

Em 1941, Alekhine regressou a Portugal, desta feita por cinco meses, tendo-se deslocado ao norte do País, onde fez duas simultâneas no Casino de Espinho. Na segunda, contra 44 oponentes, cedeu apenas um empate, frente a Fernando Encarnação, do GX Porto, clube que entretanto se mudara do Café Monumental para o Palladium.

Alekhine no GX Porto

No ano de 1942 realiza-se o IV Campeonato de Portugal que foi ganho por Carlos Araújo Pires.

Em 1944, realiza-se no Estoril o III Lisboa vs Porto, jogado a oito tabuleiros e duas voltas. Os do Porto, comandados por jovem promessa de apenas 15 anos, João Mário Ribeiro, que alcançara nesse ano o título de Mestre, conseguiram um empate a 8, fruto da dupla vitória de João M. Ribeiro sobre o Campeão Nacional Carlos Araújo Pires. A rivalidade entre as duas selecções era grande e nenhuma abdicou do troféu. E como nenhuma aceitou uma réplica, o troféu original foi serrado, tendo metade sido entregue a cada equipa.

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Esta meia taça ainda está hoje na sede do GX Porto.

 

 

No ano de 1945, realizou-se o primeiro match Portugal vs Espanha que nuestros hermanos venceram com facilidade por 12,5-3,5, com Arturo Pomar, que viria a sagrar-se várias vezes campeão espanhol, então com 13 anos, a superiorizar-se a João Mário Ribeiro.

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Em 1946, Alekhine faleceu, como Campeão do Mundo em título, em circunstâncias pouco esclarecidas, num hotel do Estoril, aqui em Portugal. No ano seguinte, em sua homenagem, é fundado em Lisboa o Grupo de Xadrez Alekhine, hoje ainda em actividade.

Com a morte de Alekhine, a Federação Internacional de Xadrez (FIDE - Federation International des Echecs) passou a organizar o Campeonato do Mundo. O primeiro, em 1948, foi disputado num torneio em que participaram os cinco melhores jogadores mundias: Euwe, Reshevsky, Keres, Smyslov e Botvinnik. Sagrou-se Campeão Botvinnik que iniciou a era do domínio soviético no xadrez. "Um convicto comunista desde a juventude, Botvinnik estudou xadrez de uma forma muito séria, científica e profissional (...) cujas bases ainda hoje formam os jovens jogadores naquela região do globo." - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Em 1957, Botvinnik perdeu o título para Smyslov. "Dono de um jogo aparentemente simples, com uma técnica fabulosa, era muito para os seus adversários conseguirem uma defesa correcta, tendo Smyslov chegado mesmo a afirmar: «Eu faço 40 jogadas boas, se você também fizer 40 jogadas boas, o jogo está empatado.» Porém, para os adversários, fazer essas 40 jogadas é que era difícil de conseguir." - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Botvinnik recuperou o Título Mundial no ano seguinte, em 1958, para o perder em 1960 para Tal, "O Mágico de Riga", devido à sua imaginação e poder táctico, recuperando-o novamente no ano seguinte.

Botvinnik vs Tal, levantando-se à vez para aliviar a tensão, no match de 1961.

Botvinnik vs Tal, levantando-se à vez para aliviar a tensão, no match de 1961.

Ainda em 1957, há notícia de torneios internos em clubes algarvios: António Reinaldo Gonçalves é o campeão do Clube de Xadrez de Portimão; e Fernando Abecassis de Resende do Clube de Xadrez de Faro. Nesse ano, Joaquim Durão vence os torneios de Skerries (Irlanda), Mérida (Espanha) e Beira (Moçambique), tendo ainda participado no Zonal de Dublin (apuramento para o Campeonato do Mundo individual).

Em 1958, Portugal participa na sua primeira Olimpíada, terminando na 31.ª posição entre 36 países participantes. No Algarve, António Gonçalves sagra-se campeão distrital de Faro.

No ano seguinte, Joaquim Durão é campeão nacional e Joaquim Veríssimo Prazeres, do CX Portimão, campeão distrital de Faro. Em 1960, o título distrital é atribuído a Hélder Sardinha, também do CX Portimão.

Em 1961, o título de campeão distrital de Faro vai para Fernando Abecassis Resende, que também vence a prova do seu GX Faro; já o torneio interno do CX Portimão foi ganho por Abelino Sousa.

No ano de 1962, Hélder Sardinha recupera o título distrital individual, enquanto a prova colectiva é ganha pelo CX Portimão à frente do GX Faro.

Tal e Petrosian observam Spassky (Riga, 1958).

Tal e Petrosian observam Spassky (Riga, 1958).

Em 1963, o trono mundial foi ocupado pelo arménio Petrosian. "O seu estilo de jogo caracterizou-se pela forma como criava posições harmoniosas, cheias de vida, nas quais desenvolvia uma tremenda energia interna. Dos seus ensinamentos podemos retirar que o mais importante numa partida de xadrez é a lógica, que nada acontece por acaso. A sua mestria em defender, aliada a um profundo conhecimento estratégico e um cálculo preciso, fez dele um dos mais conceituados Campeões Mundiais" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Em 1969, Petrosian cedeu perante Spassky, detentor de "um estilo de jogo em que tudo era algo abstracto e misterioso, o que levou a um novo conceito de jogador, o jogador universal. (...) Da sua universalidade destaca-se a sua preferência por centros móveis, desenvolvimentos livres e ataques directos ao Rei na fase mediana do jogo, e uma excelente técnica na fase final do mesmo" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Realiza-se o II Espanha-Portugal, match a 8 tabuleiros e 4 voltas, novamente ganho pelos espanhóis, desta feita por 19-13. Joaquim Prazeres é campeão distrital de Faro e Jorge Celestino Mascarenhas vence o torneio interno do GX Faro. No ano seguinte, este torneio é ganho por José Rosa Nunes.

spassky - fischer

Em 1972, o estado-unidense Fischer conseguiu intrometer-se no domínio soviético. O match Spassky vs Fischer, em plena guerra fria, é considerado o Match do século. "Fischer foi o responsável pela total profissionalização do xadrez e a revolução que criou no xadrez mundial só pode ser comparada à revolução de Steinitz" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Fischer recusou defender o título em 1975, por a FIDE não ter aceite todas as exigências que fez. O ceptro mundial foi então atribuído a Karpov. "O seu estilo de jogo ficou marcado por um instinto de sobrevivência poderoso, aliado ao seu talento natural que lhe deu uma força psicológica como Lasker e uma técnica de finais perfeita como Capablanca (...). [O mundo do xadrez questionou a sua verdadeira força, por ter sido Campeão sem jogar], mas este provou na década seguinte que era de facto o melhor ao ganhar todos os maiores torneios do mundo e ao defender o seu título por duas vezes, em 1978 e 1981, com eficácia, ante Korchnoi. Karpov foi um símbolo do regime e era considerado um herói nacional após devolver a glória xadrezística à URSS depois da derrota de Spassky em 1972.

No dia 11 de Outubro de 1977, foi fundada a Associação de Xadrez de Faro.

karpov - kasparov

Em 1985, o título passa para Kasparov, o 13.º Campeão Mundial. "O seu jogo caracteriza-se por uma ambição e um carácter enormes, onde uma mistura dos estilos de Alekhine, Tal e Fischer o levou a dominar o xadrez mundial até ao seu abandono, em 2005. (...) Este duelo entre os dois grandes K ainda ocorreu mais três vezes, em 1986, 1987 e 1990, tendo Kasparov levado sempre a melhor" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Na época 1991/92, o Sporting Clube Farense ganhou a II Divisão do 34.º Campeonato Nacional por Equipas. E em 1992/93 e em 1993/94, António Vítor, do Sporting Clube Farense, sagrou-se campeão nacional sub-18, primeiro, e sub-20, depois.

Em 1993, o inglês Short derrotou Karpov e ganhou o direito a desafiar Kasparov. Este match não se chegou a realizar sob a alçada da FIDE porque os dois xadrezistas, entendendo que esta organização estava corrupta, formaram a PCA - Profissional Chess Association.

"Após a ruptura de Kasparov com a FIDE em 1993, o Título Mundial perdeu prestígio. Houve uma divisão no xadrez: Kasparov organizava com apoios privados o seu próprio ciclo para apurar o campeão mundial, e a FIDE criava um novo modelo para a disputa do título oficial, com regulamentos completamente novos e num sistema de jogo muito controverso.

Foi assim que em 1999, em Las Vegas, o russo Khalifman, em 2000, em Teerão e Nova Deli, o indiano Anand, em 2001 o ucraniano Ponomariov, e em 2004, na Líbia, o uzbeco Kazimdzhanov ganharam os repectivos torneios e foram considerados Campeões Mundiais aos olhos da FIDE, mas não aos de muitos agentes do xadrez. [Em 2000, no campeonato paralelo, Kramnik destronara Kasparov.]" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Entretanto, em Novembro de 1995, António Vítor foi o primeiro xadrezista algarvio a integrar uma selecção nacional, a sub-26 que disputou o Mundial do escalão, no Brasil.

Gisela Águas, dos Peões do Núcleo de Xadrez de Faro, foi campeã nacional sub-10, em 1996/97.

Na época seguinte, o Núcleo de Xadrez de Faro ganhou a XX Taça de Portugal. Em 1998/99, Ricardo Duarte, do Sport Faro e Benfica, venceu o campeonato nacional sub-18.

Entre 1 e 3 de Outubro de 1999, realizou-se em Albufeira o Grupo 3 da Fase Preliminar da Taça de Clubes Europeus, na qual participaram Beer-Sheva (Israel), CS Clichy (França), CS Surya (Itália), Boavista FC (Portugal), K Gentse (Bélgica) e NX Faro (Portugal).

No final desse mês, no Hotel Paraiso, em Isla Cristina, disputou-se o I Encontro de Xadrez por Equipas Huelva-Algarve, que teve como objectivo "estreitar laços de amizade e boas relações entre clubes e federações", como registou a Algarve Xeque, a revista do xadrez algarvio que José Paulino começou a publicar e dirigir em 1997.

huelva-algarve

Foram 16 as equipas participantes: Núcleo de Xadrez de Faro (Carlos Pereira dos Santos, Fernando Silva, Jorge Gomes, Henrique Galvão), Sporting Clube Farense (Leonardo Nunes, João Pacheco, Tiago Candeias, Francisco Mendes), Club de Ajedrez La Merced (Carlos Rebollo, Anatoli Montagut), Club de Ajedrez Hotel Paraiso-Playa (Angel Z. Dias), Núcleo de Xadrez de Lagoa (João Oliveira, Maurício Schindler), Sport Faro e Benfica (Nuno Guerreiro, Manuel Neves, Carlos Fantasia Sousa), CA Amigos del Ajedrez, CA Cristo de la Victoria, Soc. Deportiva Ayuntamiento de Lepe (Angel J. B. Perez), Club de Ajedrez Esuri (Raul Vela Aguillera), Glória Futebol Clube, AD Grupo de Empresas Titanio (Miguel A. M. Jorva) e Os Peões do NX Faro.

Em 2000, o russo Kramnik destronou Kasparov no trono mundial. Por cá, o início do milénio continuou a ver xadrezistas algarvios no topo dos escalões de formação: Vasco Diogo (Núcleo de Xadrez de Faro), Nuno Guerreiro (Sport Faro e Benfico) e Luís Silvério (Clube de Futebol Esperança de Lagos) foram todos campeões nacionais.

Em 2002/03, o Núcleo de Xadrez de Faro ganhou a II Divisão Nacional; e em 2005, venceu o Campeonato Nacional por Equipas, em ritmo semi-rápido, fazendo a dobradinha no ano seguinte.

Após o Campeonato da FIDE de 2004 que consagrou Kazimdzhanov, "foi organizado um torneio de reunificação de forma a credibilizar o xadrez, já que a sua imagem havia decaído devido ao facto de existirem dois Campeões Mundiais em simultâneo. Este primeiro torneio de reunificação realizou-se no México em 2005, tendo sido ganho pelo búlgaro Topalov. Em 2006, o russo Kramnik, que já tinha vencido Kasparov no ano 2000 no campeonato paralelo, venceu Topalov no match realizado em Elista tornando-se no único Campeão Mundial de Xadrez" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Em 2007, o título mudou para a Índia, graças à vitória de Anand num torneio em que participaram 8 jogadores, o que criou alguma controvérsia pois, até então, o título era atribuído num match a 2, não num torneio. A sua credibilidade saiu reforçada no ano seguinte após bater Kramnik.

kramnik-anand

"Anand é já um produto da nova era onde os computadores são parte importantíssima na preparação e alargamento de conhecimentos dos mestres de xadrez, e o seu estilo de jogo é baseado num enorme conhecimento de aberturas em simultâneo com uma imensa capacidade de cálculo e intuição" - Sérgio Rocha e António Fróis, ob. cit.

Em 2013, Anand perdeu o título para o norueguês Carlsen, o actual Campeão do Mundo.

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Em 2013/14, André Dionízio, da Associação Desportiva e Cultural de Faro, venceu o Campeonato Nacional Sub-16.

Sandra Correia, do Clube de Pesca e Náutica Desportiva de Albufeira, integrou a selecção nacional feminina que, entre 1 e 14 de Agosto de 2014, disputou, em Tromso, na Noruega, a 41.ª edição das Olimpíadas, aí conquistando o título individual de Woman Candidate Master.

No final de 2015, André Dionízio representou Portugal no Campeonato Mundial Sub-16 na Grécia.

Em 2016, o Campeonato do Mundo regressou a Nova Iorque. Jogado à melhor de 12 partidas, Karjakin alcançou a dianteira ao vencer a oitava partida. Carlsen conseguiu empatar o match com uma vitória na décima, e a fase regular da prova, jogada em ritmo clássico, terminou com um empate a seis. A prova foi então resolvida num desempate em ritmo semi-rápido (25 minutos para cada jogador, com um incremento de 10 segundos por lance). Após dois empates iniciais, Carlsen venceu a terceira partida, pelo que na quarta, e última, bastava-lhe um empate, de brancas, para manter a coroa, mas o Campeonato fechou com chave de ouro:

Carlsen jogou 50. Dh6+!! e o mate é imparável: se 50. ... Rxh6, 51. Th8++; se 50. ... gxh6, Txf7++